O FIM DOS TEMPOS E A HISTÓRIA: O QUE VOCÊ PRECISA SABER?

18/06/2021

Azenathe Pereira Braz

# A importante influência do tempo na esperança do Fim.

Você sabia que a forma como as pessoas entendem o tempo pode influenciar sua compreensão da história?

Você sabia que a esperança do fim foi retirada da humanidade com o passar do tempo?

Neste texto iremos compreender como a visão escatológica foi sendo ofuscada da mente humana por meio da ideia de progresso.


  • OLHANDO PARA O PASSADO

"Desde que o passado deixou de lançar a sua luz sobre o futuro, a mente dos homens vagueia nas trevas" (TOCQUEVILLE, 1945, p. 331)

A frase acima é uma declaração seminal sobre o valor que os estudiosos têm dado à forma como as pessoas sentem o tempo passado, presente e futuro, bem como, a influência da concepção de tempo no sentido de mudar as convicções humanas. Isso no que tange aos estudos históricos.

Essa valorização não é determinista, contudo, vem se desenvolvendo enormemente, uma vez que, os recentes estudos sobre a escrita da história, ponderam que a maneira como as pessoas percebem o tempo determina seu entendimento de como elas se relacionam com o já vivido e, por conseguinte, com o que ainda está por vir.

Assim, a historiografia é acorde em afirmar, que o ser humano tem a capacidade de se orientar pelas experiências passadas. Isto é, a forma como o tempo passado é entendido se torna uma construção cultural que, em cada época, determina um modo específico de relacionamento entre o já conhecido e experimentado no passado e as possibilidades que se lançam ao futuro como horizonte de expectativas.


  • LEIA: ISSO MUDOU A FORMA COMO AS PESSOAS ENTENDEM O TEMPO

A partir dessas premissas, vinculamos o entendimento de como a história do cristianismo indica que houveram significativas mudanças na forma como as pessoas percebem o tempo e essas alterações na percepção da temporalidade influenciaram na condição de vida dos cristãos.

Isso porque, até o século XVI a Europa estava marcada por uma contínua expectativa do final dos tempos. Lutero afirmava que o fim deveria ser esperado para o próximo ano, ou mesmo para o ano em curso. A visão de tempo da Igreja e dos cristãos era, portanto, escatológica. O futuro do mundo, assim como o seu fim, fazia parte da própria história da Igreja, a expectativa do Dia Final era parte constitutiva e integradora da experiência humana na Terra. O entendimento de um fim eminente era comum em todas as esferas da sociedade e orientavam as ações das pessoas mais simples até as mais abastadas e poderosas.


  • A HISTÓRIA JÁ FOI ORIENTADA PELA ESCATOLOGIA

Assim, a própria história dos acontecimentos até então esteve vinculada e explicada pelo eschaton desconhecido, e as pessoas viam sua própria existência como uma parte do destino profético da humanidade. A própria realidade histórica da época das Reformas Protestantes proporcionava figuras essenciais do fim do mundo, isso porque, a ocorrência de várias guerras religiosas em diversas regiões da Europa asseverava essa noção.

Os conflitos motivados pelas rivalidades entre reformistas e católicos proporcionaram um cenário comparado ao Apocalipse de João, ao ponto de Lutero, em idade avançada, orar: "Eu peço apenas que elas não agravem ainda mais a situação, de forma que nos seja concedido ainda um pouco mais de tempo", Era um grito de misericórdia de um homem que não via mais saída para este mundo.


  • O fim dos tempos foi substituído pelo progresso

Contudo, trezentos anos após as Reformas do século XVI, o fim do mundo se tornará uma expectativa distante, constituía-se, então, uma nova forma de perceber o tempo, um novo e inédito tipo de entendimento do futuro se descortinava. Isso se deve a experiência de mais de um século de guerras religiosas sangrentas e com isso os repetitivos adiamentos do iminente fim do mundo; ao desenvolvimento da astrologia na Renascença; aos questionamentos filosóficos. Serão esses, então, os principais fatores que contribuirão para que a percepção de tempo pautada nos ensinos judaico-cristãos fosse lentamente substituída por uma forma que se assemelhava a ideia de progresso e que começou a apresentar uma aceleração característica do advento da modernidade.


  • O mundo moderno não aceitou a ideia do fim

Foi realmente o início dos tempos modernos que marcou uma constante relativização das imagens míticas do final dos tempos, as quais, eram tão reais no imaginário medieval. A percepção do tempo será fortemente secularizada e os homens modernos foram fascinados pela perspectiva de progresso e transformação revolucionária da história. Havia chegado a Era das Revoluções. E como consequência, o horizonte de expectativa pautado em uma eminente redenção eterna, se tornará gradativamente algo ultrapassado. Filósofos humanistas, anunciavam que o homem era o influenciador principal do tempo e a ele era dada a tarefa de acelerá-lo, introduzindo os tempos da liberdade e da felicidade, o futuro dourado começava com uma nova visão, livre das imagens escatológicas do mundo Medieval.


  • A Igreja Romana sucumbiu à modernidade

A Igreja Romana, fascinada pelo poder, tentava manter-se institucionalmente e lutava contra sua fatídica desagregação causada pelos descontentamentos pontuais que foram cada vez mais avolumados, assim teve por princípio dogmático manter sob seu controle os visionários. Momento emblemático desse contexto, será no Concílio Lateranense (1512 a 1517 d. C.), em que ficou decidido que era preciso uma autorização da Igreja para o anúncio de visões do futuro. Um exemplo de como as anunciações de profecias escatológicas foram dizimadas, podemos ter Joana D`Arc e Savonarola que foram condenados a fogueira por suas "visões não autorizadas".


  • O homem se tornou o centro da história

Assim a concepção de tempo marcada pela proximidade do Arrebatamento e Juízo Final estava sendo banida dos ensinos e das mentes dos homens, a interpretação dos fatos históricos acabou sendo lentamente separada da Divina Providência, e assim, com os estudos empíricos, o homem se tornou único detentor da evolução histórica da sociedade. As decisões políticas não se orientavam mais pelas esperanças religiosas para o futuro. O racionalismo, o cientificismo, o materialismo, o humanismo e as filosofias históricas baseadas no marxismo, se tornaram as forças motivadoras da noção de tempo, no seu espaço de experiências e horizontes de expectativas.


  • A descrença naquilo que é profético

Séculos depois, com um cristianismo extremamente diverso e contraditório, pode-se observar, na atualidade, as consequências desse lento desligamento da forma como os homens concebem a história e a visão de futuro cristã. Percebe-se que o mundo definitivamente não se orienta mais pela perspectiva de um fim imediato. A esperança da eternidade já não orienta nem mesmo a vida da maioria dos disseminadores desses ensinos. Aquilo que é profético já não exerce influência nos indivíduos.


  • Um mundo alheio a iminência do Fim

Diante dessas considerações, pode-se entender a situação atual da humanidade, se define como uma total indiferença sobre a interpretação escatológica dos tempos. Os homens, cada vez mais, colocam o seu horizonte de expectativas nas suas possibilidades de conquistas econômicas e a noção de um outro mundo redimido e perfeito já não faz parte de seu imaginário. Essa desesperança tem suas raízes nos primeiros séculos da Igreja fundada pelos cristãos, mas sua reverberação alcança os dias atuais com tamanha força que nos sobressalta.

Assim, faz-se necessário um retorno aos ensinos do Mestre de origem humilde que surgiu na Galileia e que alcançou o mundo principalmente por se inserir na historicidade humana e trazer um ensino principalmente fundamentado na esperança. Em suas palavras, eram frequentes os apelos ao arrependimento, ao amor a Deus e as pessoas, em seus ensinos havia algo de tangível, havia doutrinas práticas que poderiam ser entendidas por meio do próprio contexto em que os indivíduos estavam inseridos. Não obstante, o ensino que revolucionou a história, não prescindiu de uma interpretação do tempo experienciado na perspectiva escatológica.


  • Jesus e o Fim

Ao deixar a Terra os ensinos do Cristo a marcou com um legado incontestável e aos seus seguidores assegurou, pela doutrina de uma vida futura, a morada eterna que deveria ser valorizada acima de qualquer circunstância temporal, e sobre tudo o que pudesse dar peso e eficácia a essa verdade deveria ser lembrado. Dessa forma, a memória foi valorizada por aquele que fez parte da história humana e, contudo, continuou sua caminhada transcendente a condição temporal humana.

Ou seja, o Cristo, fez parte da história e se tornou memória por meio de seus atos e palavras, contudo, por sua natureza imanente e transcendente, e pelas as ações daqueles que não possuíam tais atributos, mas abraçaram um estilo de vida carregado de significados transformadores, os tais, fazem, então, sua memória se tornar viva e permanecer por eras.


  • O resgate da doutrina escatológica

Então, se a memória é constituída daquilo que lembramos e esquecemos, a reminiscência da sua vida e de seus ensinos, é uma garantia de que o poder transformador que o envolve poderá mudar novamente a concepção de tempo da humanidade. E, por mais que pareça distante, somos impelidos a confiar que, a história poderá novamente ser contada por aqueles que lançam suas esperanças naquilo que transcende a realidade do tempo presente.

Portanto, para a Igreja que tem um horizonte de expectativas baseado na iminência do fim e que se orienta pelo que já experimentou, isto é, que tem a vívida expectação de um dia participar do governo de Cristo na Terra, o passado e a sua própria história também ensinam sobre o caminho de aproximação e distanciamento dessa experiência.


  • Para onde vamos?

Ao perceber que as carências de orientação atuais é que trazem uma constante falta de identidade dos homens, a Igreja tem como urgência mostrar as suas convicções de pra onde vamos, isto é, ao invés de disseminar orientações terrenas, a Igreja deve levar os homens a lembrar que a eternidade existe e sua existência eterna é iminente.

Assim, o cristianismo é o estandarte que novamente torna possível o resgate da doutrina escatológica a fim de apresentar uma resposta para aqueles que vagueiam nas trevas.


BIBLIOGRAFIA

Documentação textual:

A BÍBLIA SAGRADA: Antigo e Novo Testamento. João Ferreira de Almeida Edição Revista e Atualizada (ARA). São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

LUTERO, M. Tischreden (Conversas à mesa). Weimar, 1913


Obras Gerais

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CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. Uma História da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2008.

CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra: Quarteto, 2001.

RICOEUR, Paul. Memória, História e esquecimento. São Paulo: Ed. Unicamp, 2012.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.

TOCQUEVILLE, A. de. A democracia na América. São Paulo: Editora da USP, 1998.