O ROMANISMO E SUAS DESVIRTUDES

21/06/2021

De Igreja perseguida para uma Igreja extraviada


Iara Barros Sales dos Santos


COMO SURGIU O ROMANISMO E COMO ESTE GANHOU FORÇA?

SERÁ QUE EM NOSSOS DIAS O ROMANISMO, POSSUI O MESMO VIGOR DE ANTES?

BOM... VAMOS DESCOBRIR AGORA!


Primeiro, pensaremos sobre a definição de igreja, que segundo Oliveira (1996, p. 17) essa palavra "igreja" "é a tradução do termo grego ekklesia, originado de duas palavras gregas ek, que quer dizer para fora, e o verbo kalein, que quer dizer chamar.

Assim, ekklesia quer dizer: os que são chamados para fora, isto é, chamados para deixarem o mundo e pertencerem a Deus".

Isso é igreja!

Mas e o Romanismo?

Então...

temos aqui #3 definições diferentes para Romanismo.

  • Segundo o dicionário Infopédia (2003) significa "designação que algumas confissões dão à doutrina da Igreja Católica".
  • Para o dicionário Priberam (s.d.), semelhantemente significa "doutrina da Igreja Romana".
  • O dicionário Michaelis (s.d.) diz que Romanismo é uma "denominação dada às doutrinas da Igreja romana, por membros de outras religiões".


O histórico da igreja teve seu início a partir da descida do Espírito Santo ressaltada na Bíblia em Atos dos Apóstolos, capítulo 2, e esta igreja que denominamos Igreja Primitiva era caracterizada especialmente por sua essência doutrinária pura (COMUNIDADE BATISTA VIDA ABUNDANTE, 2012).

Após a morte de Estevão, houve a primeira perseguição à Igreja: 

"E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria" (Atos 8.1).

Pontos importantes!

  • A perseguição à Igreja prosseguiu desde a morte de Estevão e passou a fluir exclusivamente do Império Romano no governo de Nero (54 d.C. - 68 d.C.).
  • A partir do Imperador Romano chamado Constantino I ou Constantino, o Grande (288 d.C. - 337 d.C.), os cristãos passaram a ter liberdade de culto por meio do estabelecimento de um édito denominado "Édito de Milão" que ocorreu no ano 313 d.C., visto que objetivava o fim da perseguição religiosa, por esse motivo, cessaram as perseguições.
  • No ano 380 d.C., o imperador Teodósio I, através do "Édito de Tessalônica", tornou o Cristianismo a religião oficial do Império Romano.

Em contrapartida, isso contribuiu para a adoção de novas concepções e costumes pagãos na Igreja. Por sua vez, na Idade Média, período que se estende "entre os anos 476 d.C. e 1453 d.C." (NEVES, s.d., n.p.), a Igreja foi atraída pelo poder e, como consequência, se afastou da Palavra de Deus dando lugar para heresias e inverdades.

Assim, a Igreja oficial sofreu, aos poucos, o distanciamento das raízes primitivas do Cristianismo (BANZOLI, 2018, p. 13).

No decorrer deste artigo ressaltaremos a realidade da Igreja Primitiva e como o Romanismo se originou e se fortaleceu.

Nesse momento convido você, caro leitor, para juntos fazermos uma incrível viagem no tempo, com o fim de refletirmos sobre o cristianismo!


#1

O princípio histórico da igreja se deu por intermédio da descida do Espírito Santo (Atos 2.1-4):

Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem.

No mesmo dia desse impressionante e marcante acontecimento, após o discurso de Pedro, num só dia, houve um acréscimo de quase três mil pessoas, pois "os que lhe aceitaram a palavra foram batizados" (Atos 2.41).

Conforme Oliveira (1996, p. 37), "no Dia de Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre os cento e vinte discípulos, fazendo deles a primeira Igreja de Cristo, ungindo-os e capacitando-os para uma missão de alcance mundial. As manifestações que acompanharam o derramamento do Espírito impressionaram grandemente os que as viram".


Os convertidos desse princípio da Igreja tinham as seguintes características (OLIVEIRA, 1996):

  • Eram perseverantes na comunhão, no partir do pão e nas orações (Atos 2.42);
  • em cada alma havia temor (Atos 2.43);
  • muitos prodígios e sinais eram feitos (Atos 2.42);
  • vendiam suas propriedades e bens (Atos 2.45) e louvavam a Deus (Atos 2.47).

Estes primeiros cristãos tornavam o ensino de Deus atraente, encantador e admirável.

A Igreja Primitiva, através de seus líderes, se esforçava para dispor de uma essência doutrinária pura e empenhava-se para permanecer nesse ideal.


#2

PERSEGUIÇÃO À IGREJA

Uma das características marcantes da Igreja Primitiva é o seu rápido crescimento.

Até mesmo as perseguições contribuíram para a sua expansão.

Hurlbut (2002, p. 16) destaca com precisão que "em meio à incessante perseguição, os seguidores de Cristo aumentaram em número, até alcançar quase metade do Império Romano".

Após a morte de Estevão a igreja em Jerusalém foi dispersa:

"Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria" (Atos 8.1).

Esta dispersão da igreja contribuiu fortemente e de forma espontânea para a propagação do Evangelho por toda a Judéia e Samaria, pois os cristãos da diáspora pregavam a Palavra de Deus por onde passavam.

Com o passar do tempo o Evangelho foi se expandindo entre os gentios e guiados pelo Espírito Santo, os apóstolos passaram a difundir o Reino de Deus de forma intencional, sistemática e programada (CLAUDIONOR, 2012).

Mais adiante os cristãos passaram a ser perseguidos excepcionalmente por um líder romano no governo do Imperador Nero. Em 64 d.C. Nero atribuiu a culpa do incêndio ocorrido em Roma aos cristãos e segundo a Bíblia da Mulher (2003, p. 1585), "O governo instituiu medidas legais contra os cristãos, e a sustentação do nome de Cristo se tornou ofensa criminal em muitos lugares do império. Constam em registros assassinatos de cristãos, mediante aprovação pública, pelo alegado crime de promoverem ódio aos humanos".


A última perseguição provinda do Império Romano foi praticada por Diocleciano. Hurlbut (2002, p. 65) destaca que:

"A última, a mais sistemática e a mais terrível de todas as perseguições deu-se no governo de Diocleciano e seus sucessores de 303 a 310. Em uma série de editos determinou-se que todos os exemplares da Bíblia fossem queimados. Ao mesmo tempo ordenou-se que todos os templos construídos em todo o império durante meio século de aparente calma, fossem destruídos. Além disso, exigiu-se que todos renunciassem ao Cristianismo e à fé. Aqueles que o não fizessem, perderiam a cidadania romana, e ficariam sem a proteção da lei. Em alguns lugares os cristãos eram encerrados nos templos, e depois ateavam-lhe fogo, com todos os membros no seu interior. Consta que o imperador Diocleciano erigiu um monumento com esta inscrição: "Em honra ao extermínio da superstição cristã".

Como fora dito anteriormente, foi através de de Constantino I, também conhecido como Constantino, o Grande, cessaram as perseguições e os cristãos passaram a experimentar a liberdade de culto. Constata-se que em 312 d.C., um dia antes de vencer uma batalha,Constantino teve a visão de uma cruz reluzente com a inscrição: "Por este símbolo vencerás" (MILLER, 2017, p. 255). Por esse motivo abraçou o sinal da cruz como estandarte. Porém, a sua "conversão" ocorreu em 313 d.C. Neste mesmo ano, através do Édito de Milão, decretou a liberdade de culto para os cristãos e também o fim da perseguição aos mesmos.

Curiosidade

  • Em 380 d.C. Houve o Édito de Tessalônica estabelecido pelo Imperador romano Teodósio I, e assim o Cristianismo passou a ser a religião de Estado do Império Romano, ou seja, passou a ser sua religião oficial.


#3

ROMANISMO E SEU DESENVOLVIMENTO

Hurlbut (2002, p. 90) é feliz ao afirmar que "se o término da perseguição foi uma bênção, a oficialização do Cristianismo como religião do Estado foi, não há dúvida, maldição".

Eis as mudanças ocorridas no período que Constantino I se tornou Imperador de todo o Império Romano (a partir de 324 d.C.) tolerando a fé cristã (ESCOLA DO DISCÍPULO, 2020):

  • Houveram edificações de novos templos. No ano 326 d.C. foi construída a Basílica de São Pedro (a primeira Basílica) em Roma.
  • A capital do Império foi alterada para Bizâncio (Constantinopla).
  • Houveram modificações nos cultos cristãos, como a introdução do incenso e as novas vestimentas que os ministros começaram a utilizar.
  • A elite começou a se instalar na igreja e a riqueza passou a ser estimada ao ponto de ser reconhecida como benção de Deus.
  • Os bispos não atuavam mais somente nos assuntos espirituais, mas também nos assuntos civis.

Com Constantino I havia apenas tolerância ao culto cristão, porém através de Teodósio I o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. Assim sendo, o Imperador passou a exercer autoridade na Igreja e os assuntos de cunho teológico passaram a ser decididos pelo Estado.

Com Teodósio I em 395 d.C. houve a fragmentação do Império Romano em dois: Império Romano Ocidental e Oriental.

O primeiro Império destacado foi enfraquecendo com as invasões bárbaras, até ocorrer o seu fim, cedendo à Igreja a chance de se fortalecer e ter o comando em "suas mãos". Então surgiram os papas como o é em nossos dias, que tem autoridade de mandar e desmandar. Assim, pode-se destacar Leão I (400 d.C. - 461 d.C.) que foi o primeiro a invocar para si mesmo a autoridade papal.

Logo, tanto na tolerância ao culto cristão em Constantino como na oficialização do cristianismo como religião do Império Romano em Teodósio I, podemos dizer que a igreja que outrora era pura em sua essência deixou o mundo entrar no seu interior. Os cultos passaram a ser cheios de pompa e menos espirituais.

Segundo Hurlbut (2002, p. 91):

Os costumes e as cerimônias do paganismo foram pouco a pouco infiltrando-se nos cultos de adoração. Algumas das festas antigas pagãs foram aceitas na igreja com nomes diferentes. Cerca do ano 405 as imagens dos santos e mártires começaram a aparecer nos templos, como objetos de reverência, adoração e culto. A adoração à Virgem Maria substituiu a adoração a Vênus e a Diana. A Ceia do Senhor tornou-se um sacrifício em lugar de uma recordação da morte do Senhor. O "ancião" evoluiu de pregador a sacerdote.

O Romanismo (doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana) foi se fortalecendo cada vez mais. Na Idade Média a Igreja Católica tinha uma grande influência e domínio sobre a monarquia e no "pensamento social e cultural" (ALBUQUERQUE, 2013, s.p.), sem contar com o seu "grande poder econômico" (FERREIRA, 2019, s.p.).

No século XVI a "Igreja de Roma era a maior autoridade da Europa Ocidental e detinha um imenso poder" (HISTÓRIA DO MUNDO, s.d., s.p.), no entanto, neste mesmo século houve a Reforma Protestante.


PARA NÃO ESQUECER:

  • A Igreja de Cristo teve seu marco inicial na descida do Espírito Santo onde "estavam todos reunidos no mesmo lugar" (Atos 2.1).
  • O propósito maior desta unção foi a capacitação para fazer o nome de Jesus conhecido mundialmente: "mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra" (Atos 1.8).
  • Logo no início do exercício da Igreja de Cristo começaram as perseguições, porém em meio à elas a Igreja se fortalecia, se mantinha pura espiritualmente e doutrinariamente, por isso crescia de forma espontânea, saudável e impressionante.
  • Em contraste, quando esta mesma Igreja se tornou livre das perseguições, permitiu a entrada de heresias e inverdades no seu interior, porquanto passou a ser a religião oficial do Império Romano.
  • O Cristianismo misturou-se com o paganismo, danificando-se até transformar-se em catolicismo. Foi assim que surgiu o Romanismo com as suas desvirtudes, se desenvolveu e se fortaleceu.
  • Graças a Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero em 1517, temos hoje as igrejas evangélicas que prezam pela veracidade de que Jesus é o caminho, a verdade e a vida e que ninguém pode ir ao Pai a não ser tão somente por meio d'Ele (João 14.6). Dessa forma, vê-se que graças a este movimento tão importante ocorrido há algum tempo atrás, a Igreja Católica Apostólica Romana vem perdendo forças.
  • Ainda que o Romanismo venha perdendo o seu vigor nos dias atuais, os evangélicos devem refletir sobre o seu próprio cristianismo, visto que se não houver vigilância, uma autoavaliação e uma atitude de renunciar o seu "eu" todos os dias, podem envolver-se em erros aproximados ou idênticos aos da Igreja Romana.

Jesus nos diz:

 "Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor" (Mateus 24.42)

Que essa possa ser a prática dos cristãos em todo o tempo: a vigilância! Maranata, ora vem Senhor Jesus! (Apocalipse 22.20).



Bibliografia

A BÍBLIA DA MULHER: Leitura, Devocional e Estudo. Traduzida por João Ferreira de Almeida - 2 ed. Revista e atualizada no Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2003.

ALBUQUERQUE, Camila. Igreja Católica na Idade Média. Disponível em: <https://www.estudopratico.com.br/igreja-catolica-na-idade-media/>. Acesso em: 28 out. 2020.

ALETEIA. Qual é a origem da palavra "papa"? Disponível em: <https://pt.aleteia.org/2014/01/22/qual-e-a-origem-da-palavra-papa/>. Acesso em: 27 out. 2020.

ANDRADE, Claudionor de. Lições em Atos dos Apóstolos (Parte 8). Disponível em: <https://cpadnews.com.br/blog/claudionorandrade/posts/26/licoes-em-atos-dos-apostolos-(parte-8).html>. Acesso em: 24 out. 2020.

COMUNIDADE BATISTA VIDA ABUNDANTE. Quando começou a idolatria na Igreja Católica.Disponível em: <https://m.facebook.com/BatistaVidaAbundante/posts/524026364281894>. Acesso em: 28 ago. 2020.

DICIONÁRIO PRIBERAM. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/romanismo. Acesso em: 22 out. 2020.

ESCOLA DO DISCÍPULO. As Consequências de Constantino. Disponível em: <https://youtu.be/xyE4U2oFbGU>. Acesso em: 27 out. 2020.

FERREIRA, Alessandro. A Igreja Católica na Idade Média. Disponível em: <https://historiaviva.com.br/idade-media/a-igreja-catolica-na-idade-media/>. Acesso em: 28 out. 2020.

HISTÓRIA DO MUNDO. Reforma Protestante. Disponível em: <https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/reforma-protestante.htm>. Acesso em: 28 out. 2020.

HURLBUT, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. 14º impressão. São Paulo: Editora Betânia, 2002.

INFOPÉDIA. Porto: Porto Editora, 2003. Disponível em: <https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/romanismo>. Acesso em: 22 out. 2020.

MICHAELIS. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/busca?id=poyDp>. Acesso em: 22 out. 2020.

MILLER, Andrew. A história da igreja. Tradução do livro "ChurchHistory" de Andrew Miller. Tradução livre por Helio Henrique L.C. Monte-Alto, 2017.

NEVES, Daniel. Idade Média. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/historiag/idade-media.htm>. Acesso em: 21 out. 2020.

OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. O livro de Atos: A Igreja, o seu Viver e agir. 3. ed.São Paulo: Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus - EETAD, 1996.

WIKIPÉDIA. Batalha da Ponte Mílvia. Disponível em: <https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Batalha_da_Ponte_M%C3%ADlvia>. Acesso em: 28 out. 2020.